quinta-feira, 8 de março de 2012

Das pessoas que encontramos no caminho

Também passei muitas férias com a minha tia B., irmã da minha mãe, e com o tio R. e as minhas primas. Mas essas férias eram a Sul, mas não no sul onde as mesmas pessoas de Lisboa se amontoam nas suas roupas de verão, para uma incursão colectiva ao solário do país e aos lugares da moda. O nosso Sul era só nosso.

Íamos todos os anos, na segunda quinzena de Julho rumo ao Sotavento algarvio, simultâneamente a outras famílias de amigos e primos que ficavam espalhadas pelas serras e lugares, entre Tavira e Cacela, sendo a praia de Fábrica o nosso lugar comum, o nosso ponto de encontro diário com a paz que ansiávamos todo o ano.

E assim, todos os anos, entrávamos no carro com Caetano, João Gilberto ou Gilberto Gil e dirigiamo-nos ao cais do encontro, na areia cheia de buracos feitos pelos caranguejos, junto às ruínas de uma fábrica e na sombra de Cacela Velha, imponente sobre o monte. Depois,  atravessávamos a ria Formosa, no barco do senhor Zé António ou com o Alexandre, o Barqueiro,  em grupos de 10 ou 12, para chegar à nossa praia. E todos os os anos apareciam novas caras, amigos de amigos, namorados e namoradas, para partilhar a nossa praia deserta, as nossas caminhadas até Mantarrota, os nossos cigarros na dunas, os mergulhos e os nossos castelos na areia.

Éramos sempre muitos, entre vinte e cinquenta pessoas, feitos nómadas naquela ilha que era quase só nossa já que o chapéu de sol seguinte via-se a cerca de cem metros. E juntávamos as toalhas em roda enquanto falávamos da vida ou dos livros desse verão, enquanto ansiávamos pelo levante, que substituiria as algas por ondas um pouco maiores, daquelas que penteiam o cabelo a cada mergulho. E as sandes de atum da minha tia B., invejadas por todos, e das quais sinto muita falta.

Num ano como outro qualquer, uma amiga do Tio R. veio passar essas semanas connosco, trazendo o seu amor de verão, o Pietá, "quarentão" sueco do mais cândido que pode haver. E conhecemo-lo todos os dias, trocando palavras em sueco por palavras em português, partilhando músicas e histórias e filmes e risadas ao jantar.

Partilhámos os pequenos almoços de sonho compostos por ovos, bacon, torradas, sumo de laranja natural, café acabado de fazer, para dez pessoas. Lembro-me do trabalho e amor investido em cada pequeno-almoço por quem acordasse mais cedo, normalmente o meu tio R. e eu. Ele porque começava o dia a ver e-mails, eu porque acordava na ânsia de aproveitar cada segundo daquelas semanas. E depois, lavar a loiça a cantar Chico Buarque com a minha prima M, de pano de cozinha na mão.

Os jantares implicavam o mesmo investimento por parte de todos, ou ainda maior. Muitos banhos de mangueira com água fria tomámos, no terraço, ao anoitecer, para irmos rapidamente ajudar a tia a preparar o jantar ou a pôr a mesa.

E um dia, o Pietá quis preparar sozinho um jantar para todos, como agradecimento ou despedida, não sei bem. E preparou e ensinou-nos a receita, do melhor salmão do mundo, preparado com amor e com os sabores da sua Suécia. E eu aprendi e guardei comigo a receita, junto às suas gargalhadas ébrias na secção das memórias das pessoas que encontramos no caminho. Essas pessoas que passam por nós e que de uma forma ou de outra nos marcam e depois seguem para outro lado. Sabíamos disso quando nos despedimos todos, naquela esplanada de Tavira, já com lágrimas nos olhos.

Por isso, este salmão, foi a forma que encontrei de guardar o Pietá para sempre comigo. Melhor do que qualquer fotografia.

E assim, no dia em que me apareceu uma pessoa no caminho e que eu percebi que queria que ela ficasse, a primeira coisa que cozinhei para nós foi o salmão do Pietá. Porque se aquilo passasse sabia que o salmão permaneceria e, afinal, os homens prendem-se pelo estômago. E não é que deu resultado.. No nosso último aniversário voltei a cozinhá-lo e mais uma vez recordei o Pietá e todas as pessoas que encontrei no caminho e as que ficaram.


Salmão do Pietá com Ratatui

Ingredientes:
Para o Salmão:


Postas ou lombos de salmão (1 por pessoa)
Lima (2)
Mel (1 colher de chá por pessoa)
Gengibre (a gosto)
Azeite
Alho (1 dente por pessoa)
Sal
Pimenta
Para o Ratattui:
Tomate pelado (2)
Cebolas (2 grandes)
Alho (a gosto)
Azeite (q.b.)
Courgette (1)
Abóbora ou Beringela (1)
Pimento (2, de preferência 1 de cada cor)
Cenoura ralada (1)
Orégãos
Manjericão
Se forem muitas pessoas para jantar, faça o salmão no forno. Sendo esse o caso, prepare e coloque o salmão no forno antes de começar o ratatui. Caso sejam até quatro pessoas, faça o salmão na frigideira, vale a pena, logo após ter preparado os legumes do ratatui. 


Para o ratatui, comece por verter um fio de azeite e o alho numa frigideira grande ou num wok, ainda sem ligar o lume. Depois, corte os legumes que escolheu e disponha-os por cima do referido azeite. Agora sim, acenda o lume. Ao saltar o passo do refogado, verá que os legumes ficarão muito mais apetitosos e menos embebido em gordura. Deixe em lume brando e vá mexendo para que todos os legumes apanhem o calor, durante cerca de quinze minutos.


Enquanto isso, pode preparar o salmão, caso prefira fazê-lo na frigideira.


Disponha as postas numa tábua e prepare o tempero. Comece por juntar (pode ser num almofariz ou directamente no salmão) a raspa da casca da lima com o gengibre e o alho, previamente ralados. Depois junte o sal, a pimenta, o azeite (pouco), o sumo das limas e o mel. Misture e "unte" as postas ou lombos. Coloque o salmão (e o resto do tempero) na frigideira já quente e deixe cozinhar  (cerca de 3 minutos em cada lado). Caso prefira fazer no forno, pré-aqueça o forno a 200º e deixe cozinhar durante 20 a 30 minutos, dependendo no número de postas.


Poderá também preparar outros acompanhamentos como um puré de batata, ou mesmo de maçã.


Por fim, sirva o salmão, colocando o molho do mesmo por cima de cada posta, junte os acompanhamentos, neste caso o ratatui e prepare-se para provar o melhor salmão do mundo!


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